Ainda agora se iniciaram as comemorações do centenário da República e já há polémica. Há quem diga que os louvores ao 5 de Outubro de 1910 não passam de um branqueamento da 1ª República. Há quem afirme que a condenação da 1ª República não passa de branqueamento do Estado Novo. No meio disso, a 3ª República, a nossa, tenta passar despercebida, para não fazer má figura. Infelizmente, não consegue. Como organizadora desta efeméride espalha-se logo, ao começar os festejos dos 100 anos da República com a celebração de um acontecimento que teve lugar há 119 anos. Não diz muito sobre o estado do ensino na 3ª República. Nomeadamente, do ensino da matemática. Não é uma grande maneira de honrar a República que, segundo disse o 1º Ministro no seu discurso no Porto, foi um regime que deu “uma nova prioridade à escola e ao nobre ideal de educação para todos”. Bom, desde que haja igualdade e todos tenham a mesma educação defeituosa, suponho que não faça mal.
No discurso de Sócrates, ficámos ainda a saber que os valores da República são dedicação à causa pública, progresso ao serviço dos cidadãos, patriotismo democrático, humanismo universalista, igualdade, laicidade e respeito pelas diferenças, reforço dos direitos dos trabalhadores, educação, ciência e cultura como factores de emancipação pessoal e de desenvolvimento,; modernidade política, económica e social. Artur Santos Silva, presidente da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário, acrescenta que, com a República os valores da dignidade da pessoa humana, da liberdade, da igualdade e da justiça passaram a ser mais veementemente afirmados e que vieram a merecer especial consagração nas políticas públicas o combate à pobreza e à desigualdade, bem como a centralidade da instrução e da cultura como factores privilegiados do desenvolvimento humano e da promoção da igualdade. Para ele, os maiores valores republicanos são mesmo o patriotismo, o exaltado sentido de cidadania, a dedicação à causa pública, a paixão pela justiça, a procura de progresso social, a liderança pelo exemplo, o desapego dos bens materiais, os deveres morais à altura das mais firmes convicções”. Ena! Dignidade da pessoa! E logo da humana! O exaltado sentido de cidadania, em vez do apenas moderado sentido de cidadania! O progresso ao serviço dos cidadãos, em vez de ao serviço dos alguidares! Isto é tudo formidável. A República deve ser mesmo estupenda O que eu pergunto então é: o que é se passa com a nossa? E não se pode arranjá-la?
Nesses e noutros discursos já proferidos, deu para ver que os nossos políticos vão passar o ano a disputar entre si o título de “Republicano mais Republicano desta República Republicana”. Sente-se uma bazófia republicana no ar. Cada um gaba a República mais do que o outro. “Gostas da República? Pois eu gosto o dobro!”. “Ai, é? Eu gosto da República vezes infinito!”. É uma espécie de concurso juvenil, para ver quem é que usa a sua pilinha republicana para fazer xixi republicano mais longe. Palpita-me que será um concurso demorado: não só o amor destes fanfarrões republicanos parece inesgotável, como, por causa da idade, as suas bexigas republicanas precisam de ser esvaziadas mais vezes.
Apesar da admiração que ainda lhe é dedicada, diria que, há 100 anos a República entusiasmou mais. Como um brinquedo novo, acabado de receber por uma criança. Isso explica a sucessão de Presidentes e Governos em tão curto espaço de tempo: toda a gente queria brincar. Só que, lá está, como as crianças, os primeiros republicanos eram egoístas e limitaram também a quantidade de outros meninos que podiam brincar. Limitaram o voto. Já se sabe que há brinquedos que as crianças mais pequenas não têm capacidade para usar.
Entretanto, os monárquicos pretendem um referendo, para que os portugueses se pronunciem sobre o regime. Confesso que me é indiferente. Na república, o presidente é escolhido pelos homens. Na monarquia, o rei é escolhido por Deus. Provando que fez o Homem à Sua imagem, Deus enganou-se tanto a escolher reis, como os homens a escolherem presidentes.
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sábado, 13 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
O PEQUENO GRANDE POLEGAR
No passado dia 17, um português bateu o recorde do mundo de escrita de sms. O Público só o noticiou na segunda-feira passada, uma semana depois deste feito épico. Não só demorou sete dias inteiros a anunciá-lo, como ainda preferiu fazê-lo numa edição em que deu a primeira página à aprovação do orçamento, ou qualquer coisa assim. É a comunicação social que temos. Destaca as negociações entre PS, PSD e CDS, desterrando para a erma página 9 o feito de Pedro Matias, o português que escreve uma mensagem de 264 caracteres em 1 minuto de 59 segundos. Leram bem: 264 em 1.59. É o Usain Bolt das comunicações móveis. Só para se ter uma ideia, imagine o leitor que, em proporção, é como eu escrever uma crónica destas em 20 minutos. Sei que às vezes dá impressão que é esse o tempo que dedico a estes textos, mas quem me dera a mim teclar tão depressa.
Foi a segunda vez, no espaço de uma semana, que ficámos a saber de compatriotas nossos que foram premiados por habilidades que fazem com um telemóvel. Primeiro tinham sido os dirigentes desportivos que conseguiram ter conversas como as das escutas do Apito Dourado sem que nada lhes acontecesse. À sua maneira, também é uma façanha. Há que louvar a destreza no uso do telemóvel. Só que, tal como a proeza de Pedro Matias, também a das escutas do Apito Dourado passou relativamente despercebida na comunicação social.
E é uma pena que o sucesso alcançado por este português não seja reconhecido como merece. Há que celebrar o que fazemos bem. Portugal não produz só Saramagos, Ronaldos e Antónios Damásios. Também temos recordistas de escrita de SMS. Se bem que, neste caso específico, não se pode dizer que o talento de Pedro Matias tenha enfrentado as dificuldades para se revelar, tão típicas dos portugueses noutras áreas. Se há país onde um virtuoso do telemóvel pode singrar, esse país é Portugal. Sendo um dos países do mundo com maior número de telemóveis por pessoa, era só uma questão de tempo até aparecer um artista deste calibre. Temos as condições óptimas para efectuar proezas destas. Pelo menos, melhores condições do que António Damásio teve para estudar o cérebro, por exemplo. Embora quem se dedique a este tipo de competições com telemóveis até desse um bom sujeito para um estudo neurológico. Há curiosidade em perceber a motivação que leva alguém a querer conseguir escrever mais depressa do que consegue pensar.
Escrever correctamente uma mensagem com 264 caracteres em menos de dois minutos, usando só um polegar, é um novo patamar evolutivo. É sinal que os nossos jovens estão a desenvolver capacidades formidáveis. Neste caso, a capacidade de ter um super-polegar.
Que servirá, por exemplo, para que os condutores demorem menos tempo a detectar alguém que está à beira da estrada a pedir boleia. O possuidor de um polegar super desenvolvido ganha assim 7 ou 8 segundos para sinalizar que precisa de boleia. Com a crise, o desemprego e o preço da gasolina, não é uma vantagem despicienda.
Foi a segunda vez, no espaço de uma semana, que ficámos a saber de compatriotas nossos que foram premiados por habilidades que fazem com um telemóvel. Primeiro tinham sido os dirigentes desportivos que conseguiram ter conversas como as das escutas do Apito Dourado sem que nada lhes acontecesse. À sua maneira, também é uma façanha. Há que louvar a destreza no uso do telemóvel. Só que, tal como a proeza de Pedro Matias, também a das escutas do Apito Dourado passou relativamente despercebida na comunicação social.
E é uma pena que o sucesso alcançado por este português não seja reconhecido como merece. Há que celebrar o que fazemos bem. Portugal não produz só Saramagos, Ronaldos e Antónios Damásios. Também temos recordistas de escrita de SMS. Se bem que, neste caso específico, não se pode dizer que o talento de Pedro Matias tenha enfrentado as dificuldades para se revelar, tão típicas dos portugueses noutras áreas. Se há país onde um virtuoso do telemóvel pode singrar, esse país é Portugal. Sendo um dos países do mundo com maior número de telemóveis por pessoa, era só uma questão de tempo até aparecer um artista deste calibre. Temos as condições óptimas para efectuar proezas destas. Pelo menos, melhores condições do que António Damásio teve para estudar o cérebro, por exemplo. Embora quem se dedique a este tipo de competições com telemóveis até desse um bom sujeito para um estudo neurológico. Há curiosidade em perceber a motivação que leva alguém a querer conseguir escrever mais depressa do que consegue pensar.
Escrever correctamente uma mensagem com 264 caracteres em menos de dois minutos, usando só um polegar, é um novo patamar evolutivo. É sinal que os nossos jovens estão a desenvolver capacidades formidáveis. Neste caso, a capacidade de ter um super-polegar.
Que servirá, por exemplo, para que os condutores demorem menos tempo a detectar alguém que está à beira da estrada a pedir boleia. O possuidor de um polegar super desenvolvido ganha assim 7 ou 8 segundos para sinalizar que precisa de boleia. Com a crise, o desemprego e o preço da gasolina, não é uma vantagem despicienda.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
UM MINISTRO POUCA TERRA
Parece que o Ministro das Obras Públicas, António Mendonça, acha que o TGV é como aquele mini-comboio que atravessa as praias da Costa da Caparica, só que em grande e hiperactivo. Vai daí, anunciou triunfalmente que, com o TGV, Lisboa vai tornar-se na praia de Madrid. É óbvio que António Mendonça não está a par da cartilha sobre o aquecimento global e suas profecias catastróficas. Se estivesse, sabia que daqui a 20 anos, quando o TGV estiver pronto, as águas do mar terão subido tanto que a praia de Madrid vai ser em Elvas. É em Évora que os castelhanos vão poder praticar esse desporto novo que é o surf. E em Estremoz que irritantes Joselitos e Marisols vão poder experimentar esse delicioso sorvete novo da Olá que é o Corneto de morango.
Sim, o surf é uma das razões para fazer o TGV. Claro que há gente que acha este argumento ridículo, mas é gente que não sabe que uma das principais razões para a corrida espacial na década de 50 foi outro desporto radical. Mais do que a competição com a URSS pelo domínio do espaço, os americanos queriam é um sítio giro para fazer asa delta. Entre os engenheiros da NASA havia grandes aficionados de parapente, que construíram a Apollo 13 só para se poderem lançar sobre o Mar da Tranquilidade.
Segundo o Ministro, com a introdução da locomotiva a vapor no século XIX, os “industriais da palha” [sic], ficaram “extremamente tristes” por desaparecerem as carroças e, consequentemente, deixar de haver bestas para comer a palha. É possível que, além de satisfazer os banhistas madrilenos, o Ministro ache que está a alegrar os tais “industriais da palha”. Com esta conversa, toma-nos a todos por burros e potenciais consumidores de palha.
À primeira vista, todas estas declarações do Ministro são uma provinciana saloiice. Mas numa segunda análise percebemos que, para o Ministro, saloios são os madrilenos. Saloio é o habitante dos arredores de Lisboa e o que é que Madrid vai passar a ser se não um subúrbio da capital? O que é o Real Madrid, senão um Estrela da Amadora, só que com jogadores depilados? Vai-se chegar mais rápido a Carcavelos partindo de Madrid, do que a partir do Cacém, via IC19. E vai-se descobrir que um madrileno é só um mafrense que diz “olé!”. Que a margem sul é o deserto de Castela, onde os espanhóis podem fazer essa actividade nova que é apanhar uma insolação. E que um pijo da Moraleja é igual a um betinho de Cascais, só que a tresandar àquele típico aroma de borracha queimada dos comboios.
E que se calem os Velhos do Restelo. Em breve vão poder regalar-se com buenas guapas de meia-idade a mergulhar no Dafundo. Não se pára o progresso. Se o progresso quer molhar os pezinhos no Tamariz, então vai molhar os pezinhos no Tamariz. E se com isso Manuel Godinho, o peixeiro de Armando Vara, tiver mais linhas de comboios de onde fanar carris, tanto melhor.
Sim, o surf é uma das razões para fazer o TGV. Claro que há gente que acha este argumento ridículo, mas é gente que não sabe que uma das principais razões para a corrida espacial na década de 50 foi outro desporto radical. Mais do que a competição com a URSS pelo domínio do espaço, os americanos queriam é um sítio giro para fazer asa delta. Entre os engenheiros da NASA havia grandes aficionados de parapente, que construíram a Apollo 13 só para se poderem lançar sobre o Mar da Tranquilidade.
Segundo o Ministro, com a introdução da locomotiva a vapor no século XIX, os “industriais da palha” [sic], ficaram “extremamente tristes” por desaparecerem as carroças e, consequentemente, deixar de haver bestas para comer a palha. É possível que, além de satisfazer os banhistas madrilenos, o Ministro ache que está a alegrar os tais “industriais da palha”. Com esta conversa, toma-nos a todos por burros e potenciais consumidores de palha.
À primeira vista, todas estas declarações do Ministro são uma provinciana saloiice. Mas numa segunda análise percebemos que, para o Ministro, saloios são os madrilenos. Saloio é o habitante dos arredores de Lisboa e o que é que Madrid vai passar a ser se não um subúrbio da capital? O que é o Real Madrid, senão um Estrela da Amadora, só que com jogadores depilados? Vai-se chegar mais rápido a Carcavelos partindo de Madrid, do que a partir do Cacém, via IC19. E vai-se descobrir que um madrileno é só um mafrense que diz “olé!”. Que a margem sul é o deserto de Castela, onde os espanhóis podem fazer essa actividade nova que é apanhar uma insolação. E que um pijo da Moraleja é igual a um betinho de Cascais, só que a tresandar àquele típico aroma de borracha queimada dos comboios.
E que se calem os Velhos do Restelo. Em breve vão poder regalar-se com buenas guapas de meia-idade a mergulhar no Dafundo. Não se pára o progresso. Se o progresso quer molhar os pezinhos no Tamariz, então vai molhar os pezinhos no Tamariz. E se com isso Manuel Godinho, o peixeiro de Armando Vara, tiver mais linhas de comboios de onde fanar carris, tanto melhor.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
DEIXAI ADOPTAR AS CRIANCINHAS
O casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado, mas sem possibilidade de adopção. Acho que é injusto. Nomeadamente, é injusto para os casais heterossexuais. Se os homossexuais conseguiram o casamento, então deviam levar com o casamento todo. O casamento não é só coisas boas. Também há os filhos. E é injusto beneficiar um casal homossexual, que assim evita chegar um dia a casa e ter as paredes da sala pintadas com marcadores fluorescentes. Evita ir às urgências, tirar um berlinde de um nariz. Não são mais do que nós, para terem um casamento de primeira, em que são poupados à experiência de aturar um adolescente durante a idade do armário. Que é a altura do desenvolvimento humano em que percebemos porque não é boa ideia terem-se armas em casa. Ao alcance dos pais.
Há quem diga que temos que pensar no que as crianças podem vir passar na escola, por terem dois pais ou duas mães. “E se eu tivesse dois pais, como é que teria sido a minha vida na escola?” Não posso responder por ninguém, mas a minha teria sido igualzinha ao que foi. Os meus colegas nunca conheceram os meus pais. Nem o meu pai, nem a minha mãe, iam à escola. Nunca foram assistir aos meus teatrinhos. Nunca iam às reuniões de pais. Em toda a sua vida parental só foram a uma: a primeira do meu irmão mais velho. Depois disso decidiram que era uma inútil perda de tempo. Não me parece que, se por acaso fossem homossexuais, tivessem aparecido mais. Os meus colegas nunca souberam se fui criado pelo meu pai e pela minha mãe, pelos meus avós, por um casal de decoradores ou por uma loba.
Teme-se que os filhos de casais de homossexuais sejam alvo de gozo e que isso os possa traumatizar. Um argumento que também não me comove. É que eu sou adepto do Sporting desde miúdo. Os dezoito anos de seca coincidiram com a minha idade escolar. Sei bem o que é ser gozado nas aulas Todas as 2ª feiras, depois de uma derrota com o Covilhã ou com o Penafiel, era achincalhado pelos mini-lampiões, que nesse tempo até ganhavam com alguma regularidade (parece incrível, eu sei). Podem crer que trocaria vitórias do Sporting por pais Homossexuais. Principalmente à 2ª feira. Não podendo, então preferia acumular uma má época do Sporting com duas mães camionistas. Talvez desviasse a atenção do infortúnio sportinguista. “Ó Quintela, gostas mais da mamã ou da mamã?”, diriam os gozões no início da semana, esquecendo o ridículo empate frente a O Elvas. Quem me dera...
Outra advertência é feita por quem acha que uma criança adoptada por dois homossexuais pode sentir-se chocada com as manifestações de carinho entre o casal. Não tenho dúvidas que isso aconteça. É naturalíssimo. Quem já teve o azar de ver o pai e a mãe no meio da marmelada, sabe que é chocante. A sexualidade dos pais, hetero ou homo, é sempre desconfortável. Uma vez apanhei o meu pai a beijar a minha mãe e deixei de conseguir ver filmes com cenas de sexo durante 6 meses. Quem acha que a sexualidade dos pais pode influenciar a sexualidade dos filhos, não conhece esta mecânica. É óbvio que influencia: quando pensamos nos nossos pais juntos na cama, o embaraço é tanto que só nos apetece a castidade.
Claro que vai haver sempre casos de crianças que vão dizer: “Não quero ir viver com este dois maricas. Prefiro voltar para o meu papá, que pode beber um bocadinho e queimar-me com cigarros nas costas, mas é um homem à séria. Fez 12 filhos, a maior parte à minha mãe. Mas como o meu papá ainda está em Vale de Judeus por ter matado a minha mãe, vou antes ficar por aqui, à guarda do Estado. Comem-se as melhores papas de aveia!” Nestes casos, faça-se a vontade à criança.
Espero que em breve os casais de pessoas do mesmo sexo sejam autorizados a adoptar. Talvez daqui a dois, três anos, seja uma boa altura. Agora, não. É deixá-los desfrutar. Toda a gente sabe que não se devem estragar os primeiros anos de casamento indo logo ter filhos.
Há quem diga que temos que pensar no que as crianças podem vir passar na escola, por terem dois pais ou duas mães. “E se eu tivesse dois pais, como é que teria sido a minha vida na escola?” Não posso responder por ninguém, mas a minha teria sido igualzinha ao que foi. Os meus colegas nunca conheceram os meus pais. Nem o meu pai, nem a minha mãe, iam à escola. Nunca foram assistir aos meus teatrinhos. Nunca iam às reuniões de pais. Em toda a sua vida parental só foram a uma: a primeira do meu irmão mais velho. Depois disso decidiram que era uma inútil perda de tempo. Não me parece que, se por acaso fossem homossexuais, tivessem aparecido mais. Os meus colegas nunca souberam se fui criado pelo meu pai e pela minha mãe, pelos meus avós, por um casal de decoradores ou por uma loba.
Teme-se que os filhos de casais de homossexuais sejam alvo de gozo e que isso os possa traumatizar. Um argumento que também não me comove. É que eu sou adepto do Sporting desde miúdo. Os dezoito anos de seca coincidiram com a minha idade escolar. Sei bem o que é ser gozado nas aulas Todas as 2ª feiras, depois de uma derrota com o Covilhã ou com o Penafiel, era achincalhado pelos mini-lampiões, que nesse tempo até ganhavam com alguma regularidade (parece incrível, eu sei). Podem crer que trocaria vitórias do Sporting por pais Homossexuais. Principalmente à 2ª feira. Não podendo, então preferia acumular uma má época do Sporting com duas mães camionistas. Talvez desviasse a atenção do infortúnio sportinguista. “Ó Quintela, gostas mais da mamã ou da mamã?”, diriam os gozões no início da semana, esquecendo o ridículo empate frente a O Elvas. Quem me dera...
Outra advertência é feita por quem acha que uma criança adoptada por dois homossexuais pode sentir-se chocada com as manifestações de carinho entre o casal. Não tenho dúvidas que isso aconteça. É naturalíssimo. Quem já teve o azar de ver o pai e a mãe no meio da marmelada, sabe que é chocante. A sexualidade dos pais, hetero ou homo, é sempre desconfortável. Uma vez apanhei o meu pai a beijar a minha mãe e deixei de conseguir ver filmes com cenas de sexo durante 6 meses. Quem acha que a sexualidade dos pais pode influenciar a sexualidade dos filhos, não conhece esta mecânica. É óbvio que influencia: quando pensamos nos nossos pais juntos na cama, o embaraço é tanto que só nos apetece a castidade.
Claro que vai haver sempre casos de crianças que vão dizer: “Não quero ir viver com este dois maricas. Prefiro voltar para o meu papá, que pode beber um bocadinho e queimar-me com cigarros nas costas, mas é um homem à séria. Fez 12 filhos, a maior parte à minha mãe. Mas como o meu papá ainda está em Vale de Judeus por ter matado a minha mãe, vou antes ficar por aqui, à guarda do Estado. Comem-se as melhores papas de aveia!” Nestes casos, faça-se a vontade à criança.
Espero que em breve os casais de pessoas do mesmo sexo sejam autorizados a adoptar. Talvez daqui a dois, três anos, seja uma boa altura. Agora, não. É deixá-los desfrutar. Toda a gente sabe que não se devem estragar os primeiros anos de casamento indo logo ter filhos.
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